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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Sexta Brisa

 - Segunda? - pergunto a garota que acaba de descer.
 - Sim? - responde ela
 - Somos o Primeiro e o Quinto, por favor, nos acompanhe. - completa Vincent.


 Alguns quarteirões pra cima da rodoviária, resolvo quebrar o silêncio.
 - Então, como se chama?
 - Amy. - diz ela inseguramente.
 - Eu sou o Leo e esse do seu lado, é Vincent.
 - Prazer.
 - O prazer é meu. - diz Vincent.
 - Vocês são dos Asaras?
 - Sim somos.
 - E quem vocês são?
 - Como eu disse, eu sou o Quinto Comandante.
 - E eu o Primeiro.
 - Entendo. E o que é esse clã?
 - Antes de tudo, você pode provar que é do clã? - diz Vincent.
 Mesmo que fosse um pouco grosseiro, Vincent estava certo. Todo cuidado era pouco, ainda mais se tratando de alguém que será uma de nós. E então a pergunta de Vincent é respondida quando Amy conjura uma esfera de água e nela tem uma sereia nadando.
 - Isso responde? - questiona Amy
 - Na verdade, parte apenas. - agora eu que estou sendo grosseiro
 - Pra mim, responde. - diz Vincent.
 - O que mais preciso fazer pra provar?
 - Veja bem. A mais de seis meses atrás, tentaram me assassinar, a pessoa que tentou era alguém que eu conhecida desde que tinha seis anos.
 - É só dizer que eu faço. - ela queria mesmo estar entre nós.
 - Por que essa vontade tão grande de entrar provar ser uma de nós? - pergunto a Amy.
 - Eu acho que sei por que Leo. Pelo que vejo de você Amy. - diz Vincent olhando nos olhos dela. - Você é do tipo que não fica muito tempo longe de casa.
 - Sim, é verdade.
 - Você até agora não disse nada sobre horários ou locais que você tem que cumprir. Então acho que você "fugiu" de casa.
 - Sim.. - espanta-se Amy.
 - Então, em termos.. esse é a sua única esperança.
 - Como? - pergunta Amy espantada
 - Dedução.
 - Então.. - interrompo ambos. - Eu preciso que você traga seu Gaijou a tona.
 - Como assim?
 - Eu quero falar com ela, se você for a segunda mesmo, será a avatar da Sorento. Então se eu puder falar com ela, tudo ficará tranquilo.
 - Agora? Aqui?
 - Não, quando chegarmos na minha casa.
 - Vocês não vão fazer nada comigo, não é? - diz Amy quase se encolhendo.
 - Confie em mim. - diz Vincent acalmando ela.
 - Tudo bem.
 Andamos mais cinco minutos e chegamos na frente da casa que estou morando, na frente está sentado o Jimmy com uma garota.
 - É ela? - pergunta Vincent.
 - Sim! Pessoal, essa é a Sarah. - diz Jimmy.
 - Oi. - ao contrario de Amy, Sarah é extrovertida.
 - Se importa de entrarmos? - pergunto enquanto abro o portão.
 Já dentro da casa, eu tento arrumar algumas bagunças de "garotos".
 - Não precisa. Estou acostumada já, eu mesmo sou bagunceira. - diz Amy, ao mesmo tempo vejo os olhos de Vincent brilharem por ela.
 - Acho falta de educação.
 - Seria estranho se não fosse assim. - diz Sarah
 - Leo, temos coisas mais importantes. - lembra Jimmy.
 - Bem lembrado. Primeiramente, preciso falar com o seu Gaijou, Amy.
 - Gaijou? - pergunta Sarah.
 - Enquanto isso. - diz Vincent. - Por que não conta pra ela o básico? Assim você pega jeito de explicar.
 - É uma boa.
 - Certo. - Jimmy puxa Sarah pra cozinha pra poder explicar sem nos atrapalhar.
 - Quando você tiver pronta Amy.
 - Como devo fazer? - pergunta Amy.
 - Tente chama-la, em seguida conte o que acontece e peça pra ela incorporar pra podermos conversar.
 - Cert.. - sem ao menos terminar, dos olhos de Amy saem água e caem no chão, formando uma poça, um espelho d'água.
 - Querem falar comigo? - diz a sereia no reflexo da poça.


 Após explicar sobre o clã pra Amy e comprovar que ela de fato é a segunda, nós voltamos nossa atenção a Sarah.
 - Então Jimmy, explicou pra ela? - pergunta Vincent.
 - Eu estou perplexa. - diz Sarah sem deixar Jimmy falar. - É real tudo isso?
 Vincent estende a mão aberta pra Sarah, como se pedisse a mão dela, mas em vez disso, gelo começa a se formar na palma. Ele toma um formato fino e cilíndrico, com o tempo se torna um bastão.
 - Isso é resposta? - provoca Vincent. - Se seus olhos não conseguem discernir se é real ou não, então talvez você não seja uma de nós.
 - Eu também tenho algo pra mostrar.
 Sarah estica o dedo indicador e toca no bastão de gelo criado por Vincent, de repente, o bastão quebra e vários raios saem dele e da ponta do dedo de Sarah.
 - Isso é impressionante, te ensinaram isso? - pergunto à ela.
 - Eu mesma pratiquei. - nisso Jimmy olha pra nós e sua expressão diz " eu falei ".
 - Bom. - começa Vincent. - Acho que como primeiro afazer de nova comandante, creio que a Amy deva descobrir se ela é, e coloca-la em um esquadrão.
 - Eu? - diz Amy. - Mas eu nem sei se tenho tudo isso.
 - Mantenha a calma. - diz Vincent puxando Amy pra perto deles. - Toque nela.
 - Como assim? - pergunta Amy.
 - Só a toque, você saberá.
 Amy aproxima a mão e toca o ombro esquerdo de Sarah, em milésimos ela vê a alma da avatar e do Gaijou, ela também vê a história deles, reconhecendo assim a Sarah como uma de nós.
 - Ela é uma de nós, possui Gaijou e esquadrão. - diz Amy.
 - E onde é? - pergunta Jimmy.
 - Não sei se vai parecer estranho, mas no meu esquadrão. - diz enquanto encara Sarah.
 - Isso. - diz Vincent. - Você é boa!
 - Bem-vinda Sarah, o resto, com o tempo você aprende. - digo pra ela a confortando. - Que tal irmos comer algo na Lanchonete ali da frente? Eu pago!
 - Leo. - Vincent chama a minha atenção de canto. - Estamos no meio da semana, tem certeza que você tem grana? Se tem, não é melhor pagar as suas contar primeiro?
 - Relaxa, meu pai já deve ter depositado
 - Leo, eu tenho grana qualquer coisa. - diz Vincent.
 - Se precisar! Agora vamos.
 Levanto e pego uma blusa, não que esteja tão frio mas é que da um ar de estilo também. Chegando na lanchonete, sentamos tranquilamente, pedimos nossos lanches, bebidas e jogamos conversa fora. Perguntamos da vida de Amy, de como ela tinha chegado e nos emocionamos pra caramba, afinal, não é qualquer um que perde a tia, mata o marido da tia, abandona tudo e foge pelo clã.
 A vida da Sarah também não foi fácil, nunca chegou a conhecer o pai e vive com a mãe e a irmã mais nova, vivem com o salário da mãe que trabalha 19 horas em uma fábrica de tecelagem. Mas o que eu pude reparar, é que são essas cicatrizes em nossos corações que nos une. Eu perdi minha irmã, praticamente minha mãe, meu ex melhor amigo. Jimmy tem o pai que enche a cara e a mãe que é literalmente, uma puta, mas isso não o atrapalha de cuidar de seus dois irmãos mais novos. Agora a dor de Vincent que eu não sei, nunca o vi falar de sua vida pessoal.
 - Todos nós temos nossas dores. - diz Vincent repentinamente enquanto põem a mão no olho direito. - Esperamos que elas passem um dia..
 - Tá tudo bem Primeiro? - pergunta Amy docilmente.
 - Que gentil. Por favor Amy, me chama de Vincent.
 - Tudo bem. Tá tudo bem Vincent?
 - Sim, só memórias amarguradas..
 - Quer divir com a gente? - pergunta Sarah.
 - Eu nunca soube da sua "dor", Vincent.
 - Você sabe que sou bastante fechado, Leo. - diz ele me evitando. - É algo que eu gosto de remoer sozinho.
 - Remoer não é bom. - diz Jimmy
 - Vocês estão parecendo a A.A., Asaras Anônimos. Gente é algo normal, me fez o que eu sou hoje e não estou mal, com o tempo é capaz que eu conte. - diz Vincent se fechando novamente.
 - Fala pra gente. - diz Amy enquanto sem querer, faz uma cara de "cachorrinha sem dono". - Nós vamos te ouvir.
 - Olha... - começa Vincent. - ..Eu não fico bem com isso.
 - Confie na gente. - insiste Amy.
 - Eu não tenho pai. O meu morreu por causa de bebida alcoólica, mas não antes de me marcar.
 - Como assim? - pergunto a ele.
 - Nunca fui o orgulho dele, sou o terceiro filho sendo que sou o caçula. Todos os anteriores foram planejados e mantido "sobre controle", enquanto eu.. ..fui um acidente.
 - O que você quis dizer com ele te marcar? - pergunta Sarah
 Essa cena, foi uma das mais bizarras que já vi em minha vida. Eu nunca vou esquecer a cara, o clima que ficou no lugar, quando Vincent pegou e limpou em volta do olho direito. Tinha uma linha na diagonal que pegava no seu olho e mais duas que eram paralelas mas para baixo.
 - Ele gostava de acampar e não gostava de mim, juntou o útil com o necessário. Bem mais ao norte neva no inverno, tem uma floresta pra lá que ele costumava a ir.
 - Deixa eu adivinhar. - disse Jimmy e antes que terminasse fora interrompido.
 - Você não vai adivinhar nada! - disse Sarah. - Vamos deixar ele terminar.
 - Ele o abandonou não? - Perguntou Amy.
 - Pior! Ele me abandonou com isca para atrair animais.
 - Vincent. - eu estava em choque. - O seu olho direito..
 - Não! Desde que eu tinha Seis anos, eu perdi a visão dele. Simplesmente não vejo mais.
 - Como ele pode? - diz Jimmy indignado.
 - Ele não me queria vivo, não queria ter que alimentar mais uma boca.
 - Vincent, por que eu olho parece normal? - pergunta Amy.
 - É lente, na verdade.. - Vincent retira varios " ohh " do grupo quando retira a lente e revela que seu olho direito, é amarelo. - ..ele é amarelo.
 - Por o que você foi atacado? - pergunto.
 - Ironicamente.. - começa Vicent.
 - Por Lobos... - termina Amy. -..É como se eles tivessem tirado uma parte de você e dado uma parte deles.. É como se você fosse um Lobo...


 Na hora de sair, discuto com Vincent e com Jimmy que insistiram em dividir a conta, mas pra minha surpresa eu ia ter que aceitar.
 - Como assim não tá passando o cartão?
 - Senhor, aqui diz que não possui saldo suficiente. - diz a balconista.
 - Passe de novo!
 - Leo. - interrompe Vincent. - Ela já passou quatro vezes, deixa que eu pago hoje, você acerta comigo depois.
 - Mas.. mas..
 - Relaxa, somos amigos, isso é nada.
 - Não é só isso, normalmente deveria ter pelo menos 200$.
 - Por que? - pergunta Jimmy.
 - Meu pai deposita 800$, mais o dinheiro do aluguel. Nesse mês eu não gastei com nada!
 Rapidamente pego o meu celular e ligou pro meu pai, fazia cerca de 3 meses que eu não falava com ele, mas mesmo sendo um motivo errado, era de se preocupar.
 - Tá chamando? - pergunta Amy.
 - Não. Nem disca, só cai direto na caixa postal!
 - Quer passar lá? - Vincent pressente algo. - Não parece normal.
 - Eu não posso chegar muito tarde em casa. - diz Sarah.
 - Eu levo ela embora, aproveito e vou pra minha. - fala Jimmy liberando o caminho. - Dai vocês podem ir lá sem problema com horário.
 - Certo, vamos? - pergunta Amy
 - Claro.
 Vamos direto pra casa aonde eu morava, por que assim como o Vincent, eu também tive um mal pressentimento. Meu pai não é do tipo de pessoa que desliga o celular ou deixa ele incomunicativo, por causa do trabalho ele precisa deixar ele sempre impecável.
 Assim que chegamos, eu vejo que as luzes estão apagas e que o carro não está ali.
 - PAAAI. - grito rapidamente.
 - Leo. - Vincent chama minha atenção. - O chão não é varrido a um bom tempo e as janelas estão embaçadas.
 - O que??
 - Leo.
 - Sim?
 - Eu acho que seus pais foram embora daqui..

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